quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Eliadiar: O sagrado e a experiência religiosa

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por Aline Grasiele

Queridos amigos e amigas,

Retomamos a programação do nosso Blog com a segunda reflexão a partir do pensamento de Mircea Eliade. Hoje, nossa prosa é sobre o sagrado e a experiência religiosa.

Geralmente, a idéia de “sagrado” está vinculada à bondade, ao ético, ao moral. Ser, portanto, sagrado ou santo, nessa perspectiva, significa ser revestido de uma pureza moral e ética, de uma bondade extraordinária.

Mircea Eliade, porém, encontra dificuldades para conceituar o sagrado. E as dificuldades de delimitação são tanto de ordem teórica quanto de ordem prática. Pois, na sua concepção, para delimitar e definir o sagrado seria necessário dispor de uma quantidade conveniente de sacralidades, isto é, de fatos sagrados.

Nas palavras de Eliade, a primeira definição, ou talvez, a única coisa que de fato que possa ser afirmada a respeito do sagrado, é que ele é o oposto do profano. Eliade ressalta que todas as definições do fenômeno religioso apresentadas até hoje mostram uma característica comum, e cada uma delas opõe, respectivamente, o sagrado e a vida religiosa ao profano e à vida secular.

O sagrado sempre se manifesta como uma realidade inteiramente diferente das realidades ‘naturais’. Sagrado equivale ao poder, ao real, e essa oposição entre sagrado e profano traduz-se, muitas vezes, como oposição entre o real e o irreal.

Eliade chama de hierofanias as manifestações do sagrado. Manifestação de algo diferente, de uma realidade que não pertence ao nosso mundo, que ocorre em objetos que são parte integrante do nosso mundo “natural” – “profano”.

A pedra sagrada, por exemplo, revela algo que já não é mais pedra. Quando ocorre a manifestação do sagrado, um objeto qualquer torna-se outra coisa, contudo, continua a ser ele mesmo. Uma pedra sagrada nem por isso é menos pedra, e aos olhos daquele que uma pedra se revela sagrada, sua realidade imediatamente transnuda-se numa realidade sobrenatural.

Para aqueles que têm uma experiência religiosa, toda a natureza é suscetível de revelar-se como sacralidade cósmica. O cosmos, na sua totalidade, pode tornar-se uma hierofania.

É sempre numa certa situação histórica que o sagrado manifesta, o que não significa que qualquer hierofania assim como qualquer experiência religiosa seja um momento único, sem repetição possível. Cada documento, por exemplo, pode ser considerado como uma hierofania, na medida em que exprime à sua maneira, uma modalidade do sagrado e um momento da sua história, isto é, uma experiência do sagrado.

O homem religioso deseja profundamente ser participante dessa realidade do sagrado, o que se torna possível a cada manifestação hierofanica, a cada revelação do “sagrado” ao humano. Eliade analisa a experiência religiosa da revelação invocando o dinamismo e o espírito de criatividade do homem religioso, sendo esse quem decifraria o sagrado e constituiria seu próprio universo religioso. O homem religioso, porém, não pensa de forma alguma que as histórias sagradas tenham saído de sua própria imaginação, sendo elas objeto de uma revelação do sagrado.

A experiência do sagrado, o encontro do humano com uma realidade transcendente, desperta a consciência para a idéia de que existem valores absolutos, capazes de guiar o humano e conferir significação à sua existência. A experiência do sagrado descortina-lhe a existência de um mundo real e significativo, livrando-o do terror das insignificações, do nada, ou da manifestação do profano que se mostra como existência inautêntica e medíocre. À valorização negativa do profano segue-se a oposição “insistente” do homem em viver no sagrado, que aparece como o elemento essencial na estruturação do mundo do homem religioso.

O homem moderno, no entanto, dessacralizou seu mundo e assumiu sua existência profana, o que não significa, para Eliade, o desaparecimento do sagrado e sim a sua “camuflagem”. Mesmo que esse homem não se reconheça como religioso, existem lugares/espaços que para ele são tidos como sagrados, separados, distintos dos demais espaços.

Continuaremos a reflexão sobre a “camuflagem do sagrado” na contemporaneidade, no próximo artigo.

Até a próxima quinta!

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