sexta-feira, 19 de junho de 2015

Reflexão (91) - Quem for santo que atire a primeira pedra?


por Jefferson Ramalho

Toda semana tem uma nova! Na semana passada foi a história da intolerância dos conservadores religiosos contra a manifestação da transexual que, encenando a crucificação na Parada Gay, com o intuito de mostrar que até hoje os marginalizados são violentados inocentemente, acabou execrada por aqueles que dizem ser os representantes da verdadeira moral e dos bons costumes.

Agora, foi a vez da pedrada! Uma criança de 11 anos foi atingida por uma pessoa que, por certo, afirma-se cristã e pregadora do amor e da fé... sim, como aqueles que queriam apedrejar uma mulher cerca de dois mil anos atrás, mas que foram impedidos pela frase de Jesus de Nazaré quando este afirmou: quem não tiver pecado que atire a primeira pedra.

A diferença entre os dois casos é clara. Lá a mulher era acusada de adultério, o que não justifica qualquer ato de violência ou repúdio. Aqui, a jovem é apedrejada porque tem fé, porque segue uma tradição religiosa herdada de sua família, porque não faz parte da religião dos que se dizem conhecedores do amor de Cristo.

A verdade é que, segundo as estatísticas, tudo indica que daqui a algum tempo, não duvido nada se esses sujeitos não tornar-se-ão literalmente homens-bomba do cristianismo. Ora bolas! Eles já são homens-bomba, se pararmos para pensar. Eles acreditam que com a pena de morte e com a prisão de crianças em conflito com a Lei serão resolvidos os problemas da violência que existe na sociedade. Mas, ao mesmo tempo, apedrejam candomblecistas e umbandistas e afirmam-se contra o aborto, já que argumentam ser defensores da vida e da hipótese de que só Deus pode tirá-la. Que bagunça! Que salada! Que caos!

Há, é claro, entre os cristãos – católicos e protestantes – uma pequena parcela séria, que não aceita essa intolerância, esse ódio, essa violência promovida e propagandeada nos púlpitos das igrejas e na bancada evangélica do Congresso Nacional. Todavia, esses poucos pastores e padres que não concordam com a intolerância religiosa e moralista, por vezes, acabam execrados em seus próprios círculos de convivência. Haja vista o que ocorreu com Rubem Alves quando este negou-se apoiar o regime militar nos tempos da ditadura ou o que ocorreu com Leonardo Boff quando este escreveu em favor do pobre e contra a ostentação eclesiástica.

Portanto, encerro, sinceramente, sem muitas esperanças. Afinal, não duvido que na próxima semana tenhamos uma outra manifestação de ódio, expressa em forma de pregações, de palavras, de pedradas, de tiros, de bombardeios, por parte dessa turma que se diz seguidora e imitadora do amor de Deus, mas que no fundo, não passam de víboras, de cobras venenosas, como dizia um certo homem. Eles são semelhantes a sepulcros caiados, bonitos por fora, mas podres por dentro.

O problema maior é que são tratados e reconhecidos como santos pelos seus muitos seguidores, os quais, admirados e ingênuos, pagam o que for preciso para sentir os seus perfumes importados, mal sabendo que não passam de seres inescrupulosos, cuja essência fede mais que um corpo em avançada decomposição. 

J.R.

Foto: Alexandre Vieira / Agência O Dia

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Reflexão (90) - Pai, perdoa-lhes, pois eles não sabem o que fazem!



por Jefferson Ramalho

Se você acha que estou, com este título acima, referindo-me aos milhares de seres humanos que estavam em São Paulo ontem lutando pelos seus direitos e, em meio ao movimento, simularam de maneira intolerante e agressiva a cena clássica da crucificação de Jesus, enganou-se.


Quem tem o mínimo de conhecimento bíblico com base numa exegese histórico-crítica bem elaborada, munida de ferramentas hermenêuticas livres das algemas dogmáticas e, é claro, sem medo de desconstruir quando necessário, saberá que o menos importante na narrativa da crucificação e de tantos outros episódios ali contados é a afirmação de sua veracidade factual.

Portanto, o mais importante, desde os novos parâmetros interpretativos inaugurados no auge do século XIX pelo pregador protestante, filósofo e teólogo Friedrich Schleiermacher (1768-1834), não é a historicidade de um episódio narrado na Bíblia, mas a mensagem que tal narrativa pretende passar. Essa perspectiva seria ampliada no mesmo século XIX e depois no XX por outros tantos intelectuais, quase todos de matriz protestante, como Adolf von Harnack, Rudolf Bultmann e Paul Tillich, cada qual em sua área de investigação.

Assim, o importante não é o milagre enquanto fato, mas o milagre enquanto metáfora que tem uma mensagem ética a ensinar. De que adianta acreditar na multiplicação dos pães como algo mágico, sobrenatural, fantasioso, se não aprendermos a dividir nossos pertences com quem não tem nada, como fez aquele menino que dividiu com milhares de pessoas seus únicos cinco pães e dois peixes, estimulando por meio do seu gesto a atitude de outros que também tinham e, sensibilizados, passaram a dividir?

Quem conhece o mínimo acerca da história de Jesus de Nazaré, independentemente de considerá-lo apenas humano, apenas divino ou simultaneamente humano e divino, sabe que o seu martírio representa a história de pessoas excluídas, discriminadas, oprimidas, marginalizadas. Portanto, não adianta absolutamente nada encenar a Paixão de Cristo todos os anos se não entendermos que aquilo tudo é mais que uma interpretação artística; que a Paixão de Cristo é, na verdade, não a teatralização anual da história de seu martírio, mas a história dos milhões de seres humanos que por causa da cor, da raça, do gênero, da condição sócio-econômica, da opção e condição sexual são martirizados todos os dias, injustamente. Sim, injustamente, pois não há culpa em nada disso, embora as “brilhantes mentes conservadoras” insistam em dizer o contrário.

Para não ficar enrolando, quero concluir dizendo de maneira simples e direta. Embora não tenha ido à Parada Gay, as imagens que vi na TV, na internet, em vídeo ou em foto, dessa cena, foram belíssimas – sim, belíssimas – pois apesar dessa cena representar um momento de dor e sacrifício de um ser humano, conseguiu trazer à tona aquilo que em sua origem, enquanto fato ou narrativa, pretendia transmitir como mensagem.

Talvez, nesses dois mil anos, poucas encenações da Paixão de Cristo conseguiram ser tão autênticas, verdadeiras e fiéis ao significado original da narrativa bíblica. Quando Jesus era crucificado, ali na Cruz não estavam os religiosos, os sacerdotes, os doutores da Lei, os teólogos conservadores, os guardiões da santa doutrina, mas os maltrapilhos de posse e de alma, os excluídos, os marginalizados, dentre os quais estão nossos milhares de semelhantes que são homo-afetivos, independentemente de como sua homo-afetividade de expressa.

Não houve blasfêmia, não houve intolerância, não houve cristofobia como alguns têm dito e postado ao longo do dia de hoje. Ao contrário, se Jesus estiver vivo, não tenho dúvida de que ontem Ele alegrou-se em ver que um ser humano finalmente entendeu o significado da Cruz, a saber, a expressão do grito oprimido de um inocente.

Enquanto isso, sobre os religiosos e doutores da Lei e da Moral de nosso tempo, sim, os Malafaias, os Felicianos, os Eduardos Cunha, os Bolsonaros entre outros tantos que estão, estes sim blasfemando, o Cristo estará bradando mais uma vez, lá do alto: Pai, perdoa-lhes, pois eles não sabem o que fazem.

J.R.

terça-feira, 10 de março de 2015

Reflexão (89) - Para não dizer que não falei das panelas


por Jefferson Ramalho

Quem entre nós nunca ouviu o clássico "Pra não dizer não falei das flores", de Geraldo Vandré, que acabou tornando-se um verdadeiro hino da resistência contra a ditadura militar ocorrida no Brasil, entre 1964 e 1985?

“Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais braços dados ou não
Nas escolas nas ruas, campos, construções
Caminhando e cantando e seguindo a canção”

Tempo no qual ainda havia poesia e consciência política, não é mesmo?
Semanas atrás escrevi em minha conta no facebook que não escreveria mais nesta rede social,  que expressaria minhas opiniões sobre política, futebol e religião, uma vez que muitas pessoas têm dificuldades em entender e, sobretudo, respeitar minhas escolhas. Ok!

Mas, não posso omitir-me diante do tal panelaço do último domingo promovido pela elite branca de algumas cidades brasileiras.

Claro, eu poderia aqui escrever – não com a mesma competência, claro – algo muito próximo daquilo que o jornalista Juca Kfouri escreveu em seu belo texto “O panelaço da barriga cheia e do ódio”, mas resolvi não fazê-lo. Kfouri disse tudo e pronto.  Basta!

Só não posso abster-me de manifestar minha incompreensão – mais que revolta – diante de tantas postagens de amigos e amigas, no mesmo facebook. Enquanto a mulher, no dia da mulher, falava sobre mulher, e depois sobre o Brasil, além do delinquente panelaço que ecoava desafinada e simultaneamente das janelas de alguns luxuosos apartamentos de bairros como Morumbi, Higienópolis, Vila Olímpia, Perdizes e Itaim, pessoas escreviam frases do tipo “Mulher safada”, “Dilma não representa a mulher brasileira”, “Mulher sem vergonha”, “Dilma não cansa de mentir de maneira descarada” e por aí vai...

Não há conscientização política, o que há é ódio, é raivinha, é inconformismo por parte de uma elitezinha que há treze anos perdeu o poder para um operário barbudo e sem dedo, supostamente analfabeto, e o que é pior: comunista. Pior ainda: não conseguem derrubá-lo.

Não sei se isso prova a eficácia do PT em governar, a capacidade do PT em articular para manter-se no poder ou a incompetência da oposição, especialmente a PSDBista, em não conseguir voltar a comandar o País. Resta chorar e acusar; resta pedir impeachment.

Não vou, é claro, insistir aqui na mesma conversa de sempre. Por exemplo, apesar de apertada, a eleição foi decidida voto a voto e o PSDB perdeu, pronto. Se tivesse perdido por diferença mais ampla, também estariam falando em sabotagem. É a velha mania de brasileiro que jamais reconhecerá que a seleção pode perder em uma Copa, mesmo quando é massacrada como ocorreu em 2014. Se diferença pequena for sinal de sabotagem, então podemos dizer que o PSDB sabotou na penúltima eleição em São Paulo, quando por pouco Alckmin teria de disputar um segundo turno com Mercadante!

Quero apenas, para não dizer que não falei das panelas, que aquele ato de domingo demonstra o quanto nossa “gente de bens” – não de bem – é, em grande parte, delinquente, mal educada, motivo de vergonha e desrespeito. Sim, porque se o panelaço fosse promovido pelos pobres, choveriam críticas do tipo: “Zé povinho”, “Maloqueiros”, “Pobres, marginais e sem educação”, “Baderneiros”, “Gente sem cultura”, sem falar, é claro, das possíveis afirmações racistas do tipo “Pretos, só podiam ser pretos”... Mas, como o panelaço ecoou das janelas da Casa Grande, está tudo certo. É protesto, é manifestação... e não bagunça de gente pobre!

Não, não é manifestação! E não digo nem que é apenas ódio ou raivinha antiPTtista. Como eu disse dias atrás no meu facebook: a mesma madame que reclama da economia e vive dizendo “quem mandou votar na Dilma”, não abre-mão de frequentar semanalmente o Pet Shop para falar mal da faxineira enquanto os cabeleireiros cuidam de seus pelos, digo, de seus cabelos. A mesma mocinha que, mesmo sem saber resolver um problema básico de equação do 1º grau, mas que tornou-se especialista em economia nos últimos meses só para falar mal do PT, não deixa de bater cartão no shopping para comprar seus sapatos, suas bolsas e suas roupas caras que servem apenas para atender sua crônica e deficiente necessidade de consumir e ostentar diante das amigas. O mesmo empresário que reclama do desgoverno PTista e que afirma-se defensor da justiça e da verdade, é aquele que nunca conseguiu abrir mão de parte do seu lucro para reconhecer o valor profissional de seus funcionários, sem falar aqui das suas maracutaias em relação a impostos e direitos trabalhistas dos seus empregados... Mas ladrões são o Lula e a Dilma!

Para terminar, pergunto apenas a esses conhecedores de política e economia que, do alto de suas coberturas, de suas janelas, de seus duplex e  triplex, manifestaram-se no último domingo com suas panelas teflon e talheres de prata. Vocês acreditam mesmo que com essa espalhafatosa, vergonhosa, delinquente e inescrupulosa histeria irão conseguir alguma coisa? Façam-me rir... Mas antes, é claro, deixem-me sair de debaixo da mesa, para onde fui esconder-me, de tanta vergonha alheia que senti.




terça-feira, 19 de agosto de 2014

Reflexão (88) - Por uma filosofia prática de respeito e diálogo


por Jefferson Ramalho

Porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata
Mas com gente é diferente
Se você não concordar
Não posso me desculpar
Não canto pra enganar
Vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado
Vou cantar noutro lugar
(Geraldo Vandré; Théo de Barros)

O trecho poético acima citado pertence à letra da música Disparada, composta nos anos 1960 por Geraldo Vandré e Théo de Barros, mas que ganharia notoriedade na interpretação de Jair Rodrigues, ficando em primeiro lugar junto com A Banda, de Chico Buarque, no Festival de Música Popular Brasileira, em 1966.

O contexto histórico em que esta música foi composta corresponde a um tempo de ditadura política, cujo grupo dominante era formado por militares e elites político-econômicas que defendiam uma mentalidade conservadora, fechada às manifestações culturais, à liberdade de expressão e a uma distribuição econômica que beneficiasse aquela parcela da sociedade elencada por pobres, excluídos e marginalizados.

Se hoje podemos questionar os nossos governantes ou mesmo acusá-los pela corrupção que praticam, devemos isso àqueles que lutaram de frente contra um regime que era opressor, repressor, antidemocrático, moralista e violento. Muitos desses que lutaram contra a ditadura, sob a injusta acusação de serem criminosos, traidores da Pátria e até terroristas, pagaram literalmente com sangue por acreditarem que um dia viveriam num Brasil livre, democrático, no qual as pessoas poderiam escolher quem os governasse e protestar quando aquele que fosse escolhido não cumprisse o seu dever.

Muitos estudantes, artistas, intelectuais, políticos, jornalistas, religiosos, entre outros grupos sociais, insatisfeitos com a violência psicológica e física praticada pelo Estado, foram presos, torturados, expulsos do próprio País e até mortos. O que é pior, mesmo depois de mortos eram injustamente rotulados pelo governo militar e pela imprensa como pessoas criminosas, terroristas e de alta periculosidade para a sociedade.

Neste ponto é que o trecho que destacamos da música Disparada começa a fazer sentido. Nas dependências do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), com o intuito de interrogar pessoas envolvidas com a resistência ao regime militar, a polícia as torturava das mais diversas formas. Predominava o velho e intolerante argumento da disciplina por meio da agressão física e psicológica. Choques elétricos nas partes mais sensíveis do corpo, tapas, socos, pontapés, pauladas na cabeça e nas costas, queimaduras, afogamentos e tantas outras monstruosidades eram aplicadas por aqueles que faziam o papel de representantes da ordem, da moral e dos bons costumes contra aqueles que eram considerados bandidos, assassinos, sequestradores e terroristas, quando na realidade estes só queriam duas coisas para sua gente: liberdade e dignidade.

Sempre que a música Disparada chega neste verso que diz: Porque gado a gente marca / Tange, ferra, engorda e mata / Mas com gente é diferente, podemos pensar na luta e na vida de cada pessoa que foi torturada, que foi morta, que foi expulsa do seu País, e isso por causa da convicção que carregavam na alma e no coração de que algum tempo depois a história mudaria e todo aquele cenário de terror e opressão teria fim.

Os tempos mudaram, a liberdade veio, e mesmo com tantos problemas sociais e econômicos que ainda devem ser combatidos, aquelas páginas regadas por sangue e por lágrimas ficaram para trás e temos a esperança de que nunca mais voltem a ser escritas.

No entanto, por incrível que pareça, ainda há quem defenda a tortura, a pena de morte, a censura, o silêncio do outro. O mais triste está no fato de que essas práticas começam, muitas vezes, dentro de casa, no âmbito familiar. Esposo agredindo a esposa com o argumento ultrapassado de que o homem é chefe da casa, pais castigando seus filhos física e psicologicamente uma vez que fica difícil admitir para si próprio a dificuldade de conseguir educá-los por meio do diálogo, famílias inteiras que rejeitam um membro da família que é homoafetivo, sem falarmos das mais diversas expressões de preconceito por causa de cor, raça, gênero ou mesmo escolhas religiosas ou políticas.

Quantas pessoas ainda sofrem preconceito por serem adeptas de religiões afrobrasileiras ou evangélicas? Quantas pessoas ainda são agredidas de maneira física e psicológica por serem homoafetivas, por usarem determinadas roupas, por gostarem de determinado gênero musical, por seguirem esta ou aquela religião?

Poderíamos mencionar ou mesmo detalhar muitos outros exemplos: pessoas que são consumidas pelas drogas, sobretudo, por problemas diversos de estrutura familiar; jovens que se tornaram criminosos precocemente por causa da realidade social na qual nasceram; ex-presos que quando saíram da prisão se encontravam piores do que quando entraram, uma vez que o sistema prisional do nosso País mais educa para o crime do que para a recuperação do ser humano.

São raros os casos em que certa pessoa que sempre esteve inserida em um desses contextos tenha optado pela educação e pela cidadania. A regra, portanto, é o oposto.

A probabilidade de um jovem que nasce em uma família sem estruturas se tornar criminoso logo cedo é muito grande; também é maior a probabilidade de uma criança que foi agredida – não educada – à base de surras e doses periódicas de tapas e castigos físicos e psicológicos escolher o caminho das drogas lícitas ou ilícitas. O ex-preso no Brasil, infelizmente, não é sinônimo de ser humano recuperado para viver em sociedade, mas de alguém que, no imaginário popular, por ter sido uma vez bandido, sempre será bandido. Mesmo que recuperado, um ex-preso dificilmente terá a chance de recomeçar sua vida, tornar-se um trabalhador, pois além do frágil sistema prisional sob o qual viveu por anos, a própria sociedade não consegue vê-lo como uma nova pessoa.

Poderíamos pensar nos arcaicos, alienantes e alienados chavões do tipo “bandido bom é bandido morto”, “criança, para ser educada, tem que apanhar”, “mulher minha, se não obedece, apanha”, “apanhei dos meus pais e não morri por causa disso”, mas é desnecessário. Fiquemos com os versos de Geraldo Vandré e Théo de Barros, pois estes sim são muito mais carregados de inteligência, ternura e esperança. E aos insistentes em defender a velha tática da violência politicamente correta, a mesma música diz:


Se você não concordar / Não posso me desculpar / Não canto pra enganar /Vou pegar minha viola / Vou deixar você de lado / Vou cantar noutro lugar

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*A responsabilidade pelas ideias presentes no texto restringe-se ao autor
 

sábado, 28 de dezembro de 2013

Reflexão (87) - As bem diferentes "erudições" de Jorge Mario Bergoglio e Joseph Aloisius Ratzinger


por Jefferson Ramalho

"Fale de amor, se for preciso use palavras." - São Francisco de Assis

Bergoglio critica Ratzinger não com palavras, mas adotando uma postura totalmente diferenciada. Logo, não é preciso dizer nada. Aliás, a gentileza, a educação, a forma polida de ser e agir anulam qualquer necessidade de Bergoglio ser áspero com quem quer que seja. Não que ele não possa vir a sê-lo um dia. Mas, a questão aqui é entre ele e seu predecessor. A propósito, as falas e os atos de Bergoglio são suficientes para explicitar a crítica e a denúncia direta que faz ao modelo episcopal que Ratzinger e tantos outros bispos e papas adotaram ao longo da história. Não é preciso dizer nada!


Ratzinger (o Bento XVI) é, para aqueles que conhecem um pouco de sua trajetória, conhecido por duas características fundamentais. Dono de uma mente brilhante, não há como negar que tenha sido um dos intelectuais católicos mais eruditos de seu tempo. Por outro lado, Ratzinger também é conhecido por muitos como sendo o grande inquisidor, aquele que fez o “serviço sujo” no pontificado de João Paulo II. Não foram poucos que tiveram de se apresentar ao Vaticano para prestar contas de suas “heresias” diante dele que era o cardeal responsável pela Congregação para Doutrina da Fé.


Bergoglio, poucos conheciam até aquele fim de tarde (já noite em Roma) de quarta-feira em que foi apresentado ao mundo como novo Sumo Pontífice da Igreja Católica Apostólica Romana. Um padre das periferias, sim! Não apenas das periferias de Buenos Aires, mas, sobretudo, da periferia do Planeta. Como ele próprio disse: “foram me buscar no fim do Mundo”.


Abrindo parênteses, este é o século XXI, para quem ainda não tinha percebido. Um século em que um negro se torna presidente dos Estados Unidos da América, em que um operário metalúrgico e depois uma mulher se tornam presidentes do Brasil, em que o Corinthians (time que mais odeio, mas um time do povo – como negar isso?) se torna Campeão da Copa Libertadores. Logo, o que faltava? Faltava um Papa não europeu; melhor, um Papa Latino-Americano. Perfeito!

Fazendo justiça com o nome que escolheu, Bergoglio – agora, Francisco – deixou claro o seu perfil quando esteve entre nós na Jornada Mundial da Juventude. Poderia citar aqui as muitas frases que explicitariam seu lado “periferia do mundo”, mas não se faz necessário. Poderia repetir tudo o que já foi dito sobre sua negação aos adornos de ouro, ao carro de luxo, ao aposento papal gigantesco, e às tantas outras e incontáveis ostentações que não foram rejeitadas por seus antecessores. Porém, não é preciso. Todos já estamos convencidos de quem Francisco é.

Aprendi neste ano inesquecível de 2013 – absolutamente contrário ao triste 2012, pelo menos para mim – que ser erudito é ser como uma pedra que é, pouco a pouco, polida. E quando vejo o modo polido com que Francisco se mostra, concluo que sua erudição é muito mais valiosa que a erudição intelectual de Ratzinger. Aliás, quem já teve a oportunidade de ouvir ou ler o testemunho de Leonardo Boff, um dos que teve de se apresentar ao tribunal do santo inquisidor dos anos 1980, percebeu que a intelectualidade polida de Ratzinger, conquanto existisse, esteve sempre à serviço de outros interesses.

O que concluo desse novo momento da igreja católica, em linhas gerais, é que haverá menos condenação e mais inclusão e tolerância, menos exclusivismo e mais diálogo inter-religioso, menos sermões longos e cansativos e mais mensagens de fé e esperança, menos fundamentalismo e mais abertura para uma nova época na história, não só da igreja católica, mas da sociedade mundial como um todo.

Que o apelo sempre sorridente de Francisco, sem muitas palavras e ostentações, mas com todos os gestos de gentileza e simplicidade, possa contagiar o mundo, para que as pessoas se tornem pessoas melhores, independentemente das religiões que seguem, da opção sexual que escolhem, do espaço geográfico que ocupam no planeta e da bandeira política que agitam. Feliz 2014 a todos e a todas! - Jefferson


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Reflexão (86) - No ensejo do nosso dia


por Jefferson Ramalho

Hoje, 15 de outubro, é o dia no qual “comemora-se” a importância dos professores. Sou um deles neste País maravilhoso e, ao mesmo tempo, difícil de nele viver. É maravilhoso por sua diversidade cultural, por sua gente, pelo sorriso estampado no rosto. Mas é difícil porque ainda permite que a desigualdade ocupe mais espaço que a justiça.
Vivo num País no qual o professor tem dia, mas não tem dignidade. Eu gostaria de dizer, após ter estudado por mais de vinte anos, entre escolas públicas e em três faculdades privadas, com publicações em revistas científicas, licenciatura, bacharelado, mestrado, que a minha remuneração de professor na Educação Básica estivesse equiparada à formação acadêmica que construí. Não... não está!
Sei que há incontáveis – sim, incontáveis – razões que impedem que o meu salário seja aquele que eu gostaria. Somos todos vítimas de um sistema econômico que nos escraviza a comprar tudo com tão pouco no bolso; somos vítimas de um sistema político sem vergonha que se disfarça de democracia, fazendo-nos de idiotas todos os dias; somos vítimas de um sistema educacional que optou pelo número de pessoas com diploma na mão e não pela qualidade da formação escolar que elas recebem. Por que?
Porque a maioria precisa estudar em uma escola pública que reza o que o Estado incompetente manda: aluno que não falta às aulas, ainda que tenha notas insatisfatórias em todas as disciplinas, deve ser aprovado. Ele não sabe ler, ele não sabe escrever, ele é vítima da incompetência do Governo do Estado, de todos os Presidentes que o Brasil já teve de Deodoro a Dilma, do Prefeito de sua cidade, dos vereadores e deputados de ontem e de hoje ao ponto de ter que ir à escola para comer merenda porque não tem comida em casa, mas será aprovado. Ele não vai à escola para estudar, ele vai à escola para matar a fome. Em troca disso, sem saber, ele aceita passar de ano sem aprender nada. Ele é a única vítima quando é aprovado sem ter aprendido.
Sempre há exceções; eu nem precisaria dizer isso. Mas, o que predomina é aquilo que não é exceção. É aquilo que é regra, que é comum...
E não pensem que é somente a educação pública que se encontra decadente no Brasil. Não... Infelizmente, não! A educação privada também não anda bem das pernas, com exceção de poucos colégios no País, pensando em termos de proporção, mas que são aqueles em que apenas alguns poucos filhos de classe dominante podem estudar. Por que?
Porque está cheio de donos e donas de escolas pensando na grana que entra e não no ensino de qualidade que sua instituição deveria oferecer. São, à semelhança de muitas escolas públicas, colégios sem estrutura para que o aluno aprenda desfrutando de recursos pedagógicos mais avançados, sem bibliotecas, sem laboratórios equipados, sem projetores, sem material esportivo de qualidade para as aulas de Educação Física, sem segurança, sem professores eventuais, sem um monte de outras coisas. Por que?
Quem quer uma Educação de qualidade, que tenha dinheiro para pagar por ela. Muito dinheiro! Existe argumento mais irresponsável que este?
E o Estado, por excelência, já provou que é irresponsável, as escolas privadas de pequeno e médio porte – salvo exceções – já provaram qual é a sua grande meta ($$$).
Eu teria mais de uma centena de coisas a dizer, mas a revolta, a indisposição, os sentimentos de desesperança me impedem de fazê-lo.
E o lado bom? Só há um lado bom, meus caros: o orgulho de saber que apesar de tudo isso, há alguns poucos alunos e alunas que sabem o que você está fazendo ali. Você está ali, mais do que por qualquer outra razão, por causa deles. Hoje, muitos deles não conseguem mensurar o valor disso; entenderão depois. Não importa, pois sempre foi assim e continuará sendo.
O que não pode continuar é que a Educação do nosso País continue no controle de aproveitadores, de gente interessada no poder e no dinheiro, de gente desinteressada na educação do outro. Quanto mais gente desinformada (mesmo que oficialmente formada) mais fácil será para aqueles que controlam, continuarem controlando.
Aqueles que questionam e que apontam o problema, que criticam, que incomodam, que perguntam, que não permitem que suas mentes sejam alienadas, que não calam a boca com um bônus do governo depositado na conta em ano de eleição, e que acima de tudo conhecem todos – efetivamente todos – os seus direitos, estes serão atingidos, criminalizados, silenciados em um País no qual se afirma haver liberdade de expressão, serão demitidos, violentados, agredidos de diferentes maneiras, mas dignificados não pelo que ganham, muito menos pelo que deixam de ganhar, mas pelo sorriso de gratidão estampado no rosto de alguns dos seus alunos e nas falas sinceras destes, que dizem: Obrigado! 
Obrigado, não pelas notas que você me deu, ou por ter me passado de ano. Mas, obrigado por ter sido meu professor e pela influência positiva que você exerceu em minha vida! E quando você ouve isso, dinheiro algum do mundo é capaz de reproduzir em números ou em conquistas materiais o tamanho da emoção que se apropria de você. 

Feliz por ser hoje o que sempre sonhei no passado, 
Jefferson



Meu novo livro

Amigas e Amigos:

Esta é a capa do meu segundo livro que será publicado pela Fonte Editorial. A Editora ainda não definiu a data, o horário e o local do coquetel de Lançamento. Mas, assim que tiver, irei divulgá-los.

Espero que possamos estar juntos nesta noite que será muito especial para mim, da mesma forma que foi na primeira, cinco anos atrás.

Um grande abraço!

Jefferson


quinta-feira, 13 de junho de 2013

Viva o Brasil!


por Jefferson Ramalho

Queridos brasileiros, é um absurdo esta manifestação que estão fazendo em São Paulo. Afinal, chega ser ridículo o motivo da reivindicação. Tudo bem que R$ 0,20 multiplicados por milhões de paulistanos DIARIAMENTE possa ser um dinheiro que servirá para atender aos privilégios e mordomias de poucos políticos. 


Mas, convenhamos, eles merecem. Afinal, trabalham tanto, não é mesmo? Só para darmos um exemplo do que eles têm feito pelo nosso Brasil tão desenvolvido, neste sábado será definitivamente inaugurado - embora já tenha sido aberto para o público por duas vezes este ano - o mais novo e moderníssimo HOSPITAL de última geração.

Além da arquitetura espetacular, os equipamentos que existem nele são tão avançados que o tal HOSPITAL poderá atender inclusive aos estrangeiros que aqui estarão este ano e ano que vem. As câmeras de segurança instaladas no interior desde HOSPITAL são de tão alta tecnologia que poderão captar nitidamente e em altíssima resol
ução qualquer movimento ocorrido em qualquer ponto do HOSPITAL. Tudo pela segurança!

É um orgulho mesmo ser governado por uma presidenta, por governadores, por prefeitos e por deputados e vereadores como os nossos. Como se não bastasse, além desse HOSPITAL que será oficialmente inaugurado com, inclusive, transmissão AO VIVO para todo o Brasil e para o MUNDO INTEIRO pelas principais emissoras do nosso país, por cerca de 90 minutos, outros 10 ou 15 HOSPITAIS AVANÇADOS (são tantos, que nem me lembro quantos exatamente) serão inaugurados nos próximos 12 meses.

É um orgulho ser nascido num país que tem uma Dilma como Presidenta, ser morador num Estado que tem um Alckimin como governador e saber que estamos tão bem servidos em matéria de deputados, vereadores e senadores. Pra frente Brasil! Agora, só resta ganhar a Copa que, diga-se de passagem, é uma coisa com a qual nossos governantes não têm se preocupado muito, pois de forma competente eles têm priorizado a saúde, a educação, a segurança e, sobretudo, a dignidade do nosso povo!

envergonhado - jamais por ser brasileiro - mas por ser governado por bandidos,
Jefferson

domingo, 31 de março de 2013

O grito silencioso dos oprimidos


por Jefferson Ramalho

Senhores empregadores que se consideram justos:

Os senhores acreditam que estão pagando um salário justo aos seus empregados e colaboradores, sabendo o quanto eles trabalham?

Respondam a si mesmos: os senhores viveriam bem com os salários que pagam à maior parte de seus funcionários?

Se a resposta é negativa, então concordam que o salário não é justo ou, pelo menos, não é dos melhores!

Assim sendo, os senhores não se envergonham de pagar tais salários?

Os senhores seriam corajosos o suficiente para reduzir seus lucros e faturamentos líquidos para acrescentar tais valores aos salários de seus empregados?

Se não, então são covardes? E qual covardia dos senhores parece-lhes mais difícil de ser superada?

1) a covardia de continuar desfrutando insensivelmente de um lucro excessivo que só existe graças ao trabalho do outro?

2) a covardia de continuar explorando o trabalho do outro, pagando-lhe um salário que está muito longe de chegar próximo à tua mais-valia?

3) ou, finalmente, a covardia de simplesmente demitir aquele trabalhador que, mesmo sendo competente e comprometido como profissional, resolveu reivindicar o mínimo de reconhecimento da parte de seu empregador?

J.R.

terça-feira, 19 de março de 2013

Ontem estive com os amigos Carlos Bregantim, Fernando Oliveira e Marco Nicolini, no Papo na Rede. Gravamos uma conversa muito agradável sobre a transição papal, um pouco sobre o pontificado de Bento XVI e o que representa a eleição do papa Francisco. O programa vai ao ar na próxima quinta-feira, às 16h, no site www.koinoniaonline.net 


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Reflexão (85) - Como seria bom se o próximo papa fosse assim...



por Jefferson Ramalho

É muito difícil tratar de uma temática tão complexa como esta. Sim, a renúncia de um papa por ser algo que não ocorria há séculos, trata-se de uma questão complexa. Não pretendo aqui repetir tudo o que os jornais já falaram e ainda irão falar até o dia 28 de fevereiro. Também, não é minha intenção ficar explicando como se escolhe um papa num conclave, coisa que os jornais, revistas e reportagens também estão mostrando e ainda mostrarão em demasia nos próximos dias.

Li todos os artigos aos quais tive acesso, fosse através do facebook ou de alguns portais que tenho o hábito de visitar mesmo antes dessa barulheira toda. Da mesma forma, procurei assistir atentamente vários programas televisivos, entrevistas e documentários sobre o tema corrente.

O que me chamou a atenção, por exemplo, foram falas como as do teólogo brasileiro Leonardo Boff e de outros intelectuais e religiosos ligados à clássica e não extinta – embora muitos ainda insistam em afirmar isso – Teologia da Libertação. Afirmações estas que podem ser resumidas na surpresa que a renúncia de Bento XVI lhes causou, demonstrando humildade e, sobretudo, uma atitude de uma pessoa com mente sensata.

Estes que assim disseram foram os mesmos teólogos que sempre lançaram críticas ao cardeal Ratzinger – mais que ao papa Bento XVI – por sua postura repressiva e intolerante quando foi braço direito do antigo Sumo Pontífice João Paulo II. O atual papa, quando era o cardeal responsável pela Congregação para Doutrina da Fé, uma vez que trabalhava para defender a sã doutrina católica, fora encarregado pela convocação, julgamento, condenação e censura de diversos padres que, como Leonardo Boff, adotaram uma interpretação da fé à luz de referencias teóricos reprovados pela Igreja Católica; por exemplo, o marxismo.

Hoje, às portas da renúncia oficial de um papa e início de um conclave que elegerá um líder que poderá vir a ser a representação de um novo ciclo na história da Igreja Católica, sabemos o quanto não somente a instituição católica e seus fiéis, mas o mundo quase todo precisa de um papa absolutamente diferente de Bento XVI, de Ratzinger, como queiram chamá-lo.

Sim, ele ainda exerce uma influência significativa internacionalmente. Quando um presidente como Barack Obama diz que foi bom trabalhar com Bento XVI, parece ficar claro o quanto a influência de um papa ainda é real no mundo contemporâneo. Poderíamos listar inúmeras formas através das quais esta relação ampla de poderes entre a Igreja e os Estados acontece nos dias atuais. Não é necessário!

Mas, já que esta mútua colaboração política não deixará de existir por muito tempo ainda – não sabemos quanto – que possa ser com a participação de um papa que: não seja tão retrógrado, tão religiosamente medieval, tão comprometido com uma teologia dogmaticamente conservadora, tão defensor de fundamentos e de tradições absolutamente incompatíveis com o nosso século. A sensação que temos com Bento XVI é a de que vivemos quase mil anos antes do nosso tempo – só faltam as fogueiras.

Como seria bom se o novo papa fosse aquele que insistisse na importância de uma parceria da Igreja Católica com instituições, ONGs e até com a própria mídia em campanhas de combate à AIDS, de orientação tanto acerca do planejamento familiar como da educação sexual, conscientizando o mundo sobre o uso da camisinha e dos métodos contraceptivos!

Como seria bom se o novo papa fosse aquele que reconhecesse o valor das mulheres religiosas, ou seja, as freiras, ao ponto de oficializar a estas uma autoridade absolutamente igual à dos homens dentro da hierarquia da Igreja!

Como seria bom se o novo papa entendesse e, mais do que isso, convidasse a Igreja a entender junto com ele que homossexuais são simplesmente seres humanos e, que, por causa disso, como qualquer católico heterossexual, merece também uma vida comum e digna perante a igreja e a sociedade, inclusive tendo o direito de experimentar a felicidade e a emoção de uma cerimônia religiosa ao pé da cruz de Cristo, para oficializar diante de Deus o seu amor e a sua união com a pessoa com a qual quer viver até que a morte (ou o divórcio) os separe!

Como seria bom se o próximo papa derrubasse os muros do fundamentalismo tão protegidos por papas como Bento XVI e, consequentemente, permitisse que os sacerdotes pudessem assim como os leigos, terem o direito de construir uma família, ter filhos e, simultaneamente servir a igreja, porque isso é possível, sim!

Como seria bom que o papa que será eleito nos próximos dias escrevesse pelo menos uma encíclica afirmando que realmente a mulher é dona de seu corpo e, que, por esta razão, pode decidir se terá ou não aquela criança que foi gerada em seu ventre!

Como seria bom se o próximo papa não fizesse vistas-grossas para os inúmeros casos de pedofilia praticados por padres, no mundo todo. Punir, apenas o sacerdote, é pouco. É preciso punir a pessoa. O pedófilo é um criminoso como qualquer outro e deve ser julgado rigorosamente, sem o amparo e a proteção de uma Instituição que diz que não o apoia, mas que na prática lhe oferece todo o amparo. Lamentável!

Como seria bom se a Igreja, a partir do próximo papa, desse as mãos à ciência e à medicina, reconhecendo que pesquisas com células-tronco embrionárias são não somente um avanço, mas, principalmente, um instrumento divino descoberto pelo homem para salvar a vida de inúmeras outras pessoas!

Como seria bom se o próximo papa fosse um agente que promovesse a partilha, a eliminação da miséria em países aonde ainda se morre de fome, de frio ou até de calor, a solidariedade efetiva para com os desfavorecidos e a assistência aos doentes sem cobrar as fortunas que muitas vezes são cobradas em hospitais sob filiação católica, uma vez que sabemos ser o patrimônio da Igreja, graças às doações dos fieis do mundo todo, infinitamente maior que o salário de um médico ou que o preço de uma cara cirurgia ou de um caro exame!

Infelizmente, neste caso, devo ser sincero: não acredito que isso venha acontecer. Às vezes parece que a Igreja na condição de instituição tem seu compromisso firmado não com a humanidade, mas com o seu patrimônio e com o seu edifício de tradições dogmáticas.

Mas, não é caro nem proibido sonhar assim!

na esperança de um mundo melhor,
Jefferson

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Sobre a renúncia de Bento XVI

                                                                                 

Amigas e Amigos:
Em breve escreverei sobre o Papa Bento XVI e sua renúncia. Estou acumulando artigos e depoimentos como os do teólogo Leonardo Boff e aguardando novas informações para que, quando escrever, o possa fazê-lo uma única vez; mesmo que isso seja só após o conclave. Até breve!
Abraços aos visitantes e seguidores do blog.
Cordialmente
Jefferson

sábado, 19 de janeiro de 2013

Reflexão (84) - Afinal, ele é Deus ou não é?



por Jefferson Ramalho

Poucos sabem que em 2008 lancei um livro chamado:  “Jesus é Deus? – uma reflexão sobre a divindade de Cristo na História”. Pois bem, esta publicação corresponde ao meu trabalho de graduação interdisciplinar, apresentado e defendido em banca examinadora na Universidade Mackenzie, para obtenção do meu título de bacharel em teologia, cerca de três anos antes.

Hoje, quando apresento o livro a alguém e a pessoa vê que o título é uma pergunta, logo ela me devolve a mesma pergunta. Sinceramente, sinto vontade de dizer: leia, por favor, e saberá. Mas, opto por responder de diferentes maneiras, considerando sempre quem está perguntando.

Mas, o mais comum e correto, em minha opinião, é dar a seguinte resposta: Depende! Se a pessoa perguntar “por que?”, eu responderei: Simples, você quer que eu diga se Jesus é Deus a partir de qual perspectiva? Posso lhe responder como historiador, como cientista da religião, como teólogo e como religioso. O que prefere?

Sim, porque sou um pouco das quatro coisas. Estou tentando ser historiador, pois não passo de um licenciado em História que almeja o doutorado na mesma área; recentemente consegui me tornar mestre em Ciências da Religião; sou teólogo de formação, mesmo porque o tal livro foi resultado de uma pesquisa teológica e, finalmente, embora sem frequentar qualquer culto religioso há pelo menos dois anos, ainda me considero um religioso, pois mantenho em mim uma certa e bastante agnóstica espiritualidade que muito despretensiosamente costumo chamar de fé.

Se for para eu responder como historiador, direi: Não, Jesus não é Deus! Trabalho com a hipótese de que houve uma personagem histórica chamada Jesus de Nazaré, que com o passar dos primeiros séculos da nossa era, aos poucos, foi sendo divinizado pelos que se identificavam como seus seguidores. E esse processo de divinização foi consequência de uma série de interesses: religiosos, políticos, sociais e econômicos. Portanto, como historiador, tenho certeza de que Jesus não foi Deus, mas um simples líder de um pequeno grupo dentro do judaísmo que, com o tempo, ganhou forma, cresceu e se tornou numa das principais religiões mundiais, sem que ele (Jesus), inclusive, tivesse pretendido isso quando reuniu seus primeiros companheiros.

Como cientista da religião, mesmo que em diálogo com a história e com a teologia, direi: não importa! Isso mesmo, não importa se ele era ou não Deus. O que importam são os efeitos que a sua história tenha causado entre aqueles que optaram por segui-lo, independentemente do momento, do lugar e sob que formato. O que importam são os modos como alguns pensamentos lhe foram atribuídos e, mais do que isso, aceitos e rejeitados ao longo do tempo. O que importam são os modos como suas ideias e história terrena tenham sido reproduzidas em formas de texto, imagem, pintura, escultura, música e rito. Logo, veremos que estas reproduções, ora lhe apresentarão como humano, ora como divino, ora como humano e divino, enfim, importam estas formas, sem que haja de minha parte o compromisso de afirmar que ele foi Deus ou não só porque a arte, a letra, o pincel,... assim o mostraram.

Se me perguntam se Jesus é Deus esperando uma resposta teológica, responderei: depende de qual corrente teológica eu sigo. Se eu for ortodoxo dogmaticamente falando, responderei sem titubear que ele é Deus e sempre será, literalmente. Se, porém, eu for um teólogo heterodoxo, direi, por exemplo, que sua divindade é muito mais uma metáfora como afirma John Hick ou um símbolo do divino como diz Roger Haight, mas, jamais, uma divindade no sentido literal e completo conforme afirmaram teólogos clássicos como Santo Agostinho, Santo Atanásio, Santo Anselmo, Santo Tomás de Aquino, Martinho Lutero, João Calvino e Karl Barth.

Finalmente, se esperarem de mim uma resposta de um religioso, direi: não sei, pois como agnóstico, não conheço os mistérios daquilo que está além da nossa realidade. Prefiro dizer que não sei por uma razão simples. Se eu disser que tenho certeza de sua divindade, estarei mentindo, pois alguns anos de estudo sobre o longo processo que levou à convicção dogmática da divindade de Jesus foram suficientes para fincar um gigantesco ponto de interrogação em minha mente, e isso, mesmo eu sendo alguém que ainda crê em alguns absurdos da fé, não posso desconsiderar. Sou daqueles que entendem a dúvida não como algo prejudicial à fé, mas contribuinte, pois me livra de voltar a acreditar em invenções de líderes religiosos desonestos.

Contudo, mesmo com essa dose forte de agnosticismo que tomou conta de mim de algum tempo para cá, não consigo abrir mão daquilo que sei e vivi, enquanto ser humano – e isso vem antes da academia, da filosofia, da ciência, da razão, da dúvida – que foi um encontro genuíno com a Graça Absoluta de Deus, por meio da compreensão que pude ter da singularidade que representa e significa o sacrifício de Jesus, e este, neste caso, não somente como Jesus, mas como Jesus e como Cristo. Cristo é a palavra grega que traduz o hebraico Messias. Em outras palavras: o ungido, o escolhido e, na perspectiva cristã, mais que tudo isso, o Deus Encarnado.

Eu prefiro continuar crendo, duvidando e, convicto, de que independentemente da resposta correta para a pergunta que serve de título ao meu livreto, Jesus deixou um exemplo e um ensino de amor e solidariedade que valem muito mais que qualquer dogma construído teologicamente acerca de sua pessoa, sobretudo, quando tal exemplo e tais ensinos são colocados em prática por mim, que quase sempre não passo de um imprestável ser humano.

na Graça, mas sempre com dúvidas; 
Jefferson

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Reflexão (83) - Vá embora, 2012! Venha logo, 2013



por Jefferson Ramalho

Este ano foi um dos mais dolorosos que já vivi. Ânimo para escrever neste meu espaço virtual, praticamente não existiu. Foram poucas postagens, pouca inspiração, poucas ideias. As dores tomaram conta da minha alma, do meu coração, como nunca antes. Perdas, decepções, lágrimas... Estes itens me sobraram! Como se não bastasse, resta-me homenagear meu avô Alcides, cuja partida ocorreu há quase nove meses. Pretendo nos próximos dias fixar um epitáfio em sua sepultura. Nele, além do nome e das datas de nascimento e falecimento, consta no rodapé simplesmente uma palavra, que a meu ver, diz tudo: saudades.

Não posso, também, ser injusto. Coisas boas aconteceram. Ao lado da minha companheira, esposa e cúmplice só acontecem coisas boas. Mas, não devo ser desonesto comigo mesmo, pois as dores, desta vez, suplantaram toda e qualquer expressão de alegria. Tudo o que eu quero que aconteça é que estes dias de dezembro passem logo e que chegue o ano de 2013. Espero que seja um ano melhor, feliz, com menos dores, com menos lágrimas, se possível, sem perdas. E se estas ocorrerem, que não sejam tão brutais como foram as de 2012.

Amigas e amigos que estão visitando este meu espaço pela primeira vez, deixo o meu convite. Faça um passeio neste blog, leia os meus outros textos, cada qual escrito em meio a uma situação específica da minha vida. Não me constranjo em dizer que as reflexões aqui publicadas e que foram escritas por mim (porque algumas poucas foram escritas por outras pessoas), falam um pouco, falam muito, e, às vezes, falam tudo a meu respeito. Isso, porém, só é percebido nas entrelinhas por aquele ou aquela que me conhece, que sabe o que experimentei de prazeroso ou doloroso nos últimos anos. Quem, contudo, não me conhece o suficiente, não deixará de ser provocado pelas coisas que escrevi neste período. Fica o convite!

Espero que em 2013 eu tenha ânimo, disposição, vontade, inspiração, ideias e mais ideias, para encher este espaço de novas reflexões, de novos desabafos, de novas provocações – sejam filosóficas, sejam teológicas – mas que seja um ano produtivo neste sentido.

Tenho planos para este ano que se aproxima e espero conseguir cumpri-los. Desejo escrever, estudar, amar, trabalhar, viajar, conhecer, apreciar, sorrir, pensar, conseguir, tudo isso e mais um pouco, muito mais que consumir, chorar, brigar, perder a cabeça, perder o que quer que seja, odiar, parar...

Cito tais verbos, porque em 2012 alguns deles eu pratiquei em demasia: sobretudo, em 2012 odiei e chorei, e eu tive razões para fazê-lo. Mas, isso não significa que eu não tenha amado ou sorrido. Todavia, as marcas deixadas pelo ódio sentido e pelas lágrimas derramadas, incrivelmente, permanecem.

A quem de 2011 para trás tinha o hábito de sempre passar por aqui para ler alguma coisa que, ao menos semanalmente eu costumava postar, peço desculpas por tê-los literalmente abandonado em 2012. Prometo e me comprometo ser mais assíduo em 2013.

Fico na expectativa de que o ano que vem por aí seja muito diferente, muito melhor do que tem sido este tal de 2012. Vá embora logo, ano ingrato; chega logo, 2013.

na Graça, apesar das desgraças;
Jefferson

foto: Poços de Caldas/MG - 18/06/2012 - 14h40.

sábado, 9 de junho de 2012

Reflexão (82) - Celebrando a vida


por Jefferson Ramalho

Os meus amigos e ex-irmãos cristãos que me desculpem, mas hoje não posso mais dizer que sou cristão; já fui, tanto na versão católica quanto evangélica, ainda preservo muitos elementos do cristianismo em minha conduta, mas não posso mais afirmar que sou cristão. Isso, contudo, não significa que eu tenha me convertido a outra religião, tampouco que eu tenha me tornado ateu. O que serei no futuro em matéria de crença ou de descrença, ainda não sei, mas o fato é que opto atualmente pela sensatez do agnosticismo.

Chamo de sensatez porque entendo que seja muito mais sincero e coerente afirmar que ingenuamente acredito na existência de uma condição divina, superior, além da condição humana, mas que é impossível de ser interpretada. Em outras palavras: ainda acredito em deus, mas confesso que não sei como ele é. A teologia cristã, minha primeira formação “acadêmica”, já não mais me seduz com a sua arrogante pretensão em dizer como deus é ou como é a vida após a morte. Nem a versão mais ortodoxa, tampouco a moderada, muito menos a mais aberta, heterodoxa ou liberal – como queiram – conseguem me fazer acreditar que deus é do modo como elas afirmam que ele seja.

Alguns, certamente, dirão mais uma vez que estou me expondo. Penso que qualquer pessoa que uma vez tendo optado por participar de redes sociais, se há uma coisa com a qual ela não se preocupa é com a exposição de sua própria imagem. Claro que ninguém, exceto minha esposa, sabe como é hoje a minha vida no momento em que a porta é trancada, em que a roupa é tirada e a luz apagada. Mas tornar públicas ideias, opiniões, críticas, dúvidas, crenças e descrenças, está pra além de expor a imagem de si próprio. Quando resolvi torna-me um escritor, assumi um compromisso comigo mesmo: escrevo não para que muitos me leiam, mas para que aqueles que me lerem sintam-se provocados, atingidos. Meu livro, e os próximos, pois pretendo voltar a publicar em breve, meus textos do blog, são – e eu sei – verdadeiros fracassos de vendas. Esta, porém, nunca foi a minha preocupação. Antes, o que mais quero é polemizar, pois se tem uma coisa que percebo desde a infância é que a polêmica incomoda, sobretudo, a quem está no poder. E se tenho duas missões na vida, uma delas é a de nunca querer alcançar o poder já que este só pode ser alcançado através ou do abuso, ou da mentira, ou da violência, ou da manipulação, ou da exploração do outro; a minha segunda missão seria a de expor quem está no poder ao ódio, à revolta, à raiva, à contradição, à vergonha, à de ter de reconhecer ou pelo menos não conseguir demonstrar que sem o poder elas não são nada e que venderiam a alma se fosse preciso para não perdê-lo. Por isso, sou polêmico!

Neste ano duas perdas atingiram significativamente os meus sentimentos. Perdi no final de fevereiro minha tia Rosa, com quem convivi os quatro primeiros anos de minha vida, mas com quem pude manter uma relação de extremo carinho em toda a infância, pois passava quase todas as minhas férias escolares com ela, sempre a recebíamos em nossa casa e sua companhia, apesar do temperamento forte que ela tinha – além de reclamona – sempre foi pra mim maravilhosa, carinhosa, indispensável. De todos os seus sobrinhos, tenho certeza, sempre fui o único que pra ela telefonava em todo dia 6 de janeiro para desejar feliz aniversário. Tanto que teve apenas um ano – acho que em 2010 – em que acabei não ligando na data e aí ela disse: neste ano, ninguém (nem o Jefferson) me ligou para me dar parabéns.

A outra perda irreparável que vivenciei neste ano – exatamente uma semana depois da morte da minha tia Rosa – foi a do meu avô Alcides, meu padrinho de batismo, avô materno, parceiro fiel na hora de ouvir modas de viola. Um homem que sempre amou viver. Ainda não consegui conceber que estaremos reunidos em família nas festas de aniversário, almoços de dias das mães ou dos pais, e ele simplesmente não estará conosco. Mesmo já tendo perdido algumas pessoas no passado, estas duas perdas me fizeram perceber que a morte realmente existe. Sim, parece uma afirmação absurda e um tanto quanto imatura, mas é isso mesmo. A morte só se mostra real, quando ela consegue roubar da gente quem realmente amamos. Ainda choro muito quando me lembro dele.

Apesar da minha apostasia, não consigo simplesmente concluir que suas almas se evaporaram. Quando chorávamos e os tocávamos durante os velórios, não só lamentávamos pelas perdas dos seus corpos. Também, mas muito mais pela certeza de que nunca mais ouviríamos suas vozes, nunca mais veríamos seus sorrisos, nunca mais sentiríamos as suas presenças. E são estas as composições da condição humana que os vermes não podem devorar, que a terra não pode comer. Por isso me pergunto, em que lugar estão as suas almas? Como já não sei mais acreditar piamente em céu, em inferno, em purgatório ou em reencarnação, prefiro em acreditando, pensar que as suas almas não deixaram de existir, afirmar que não sei para onde elas foram. Embora Ludwig Feuerbach, Karl Marx, Artur Schopenhauer e principalmente Friedrich Nietzsche sejam hoje os meus filósofos preferidos, continuo ainda muito platônico quando o assunto é vida após a morte. Só nunca vou saber como se dá tal imortalidade da alma, se é que ela existe.

A alegria da vida está no fato de que podemos celebrá-la, apesar dos desencontros, das perdas, das lágrimas que vem quando a saudade toma conta da gente, das tristezas e das boas lembranças. E celebrar a vida significa se alegrar com o fato de que se alguns vão embora, outros chegam. Não que haja uma espécie de substituição. Impossível! Pessoas que amamos são definitivamente insubstituíveis. Prefiro chamar esta experiência de compensação. Sim, pois se no início do ano perdemos pessoas que sempre foram amadas por nós, agora chega para abrilhantar nossa família, fazer a alegria voltar a tomar conta de nossos corações e trazer felicidade – muita felicidade – uma linda criança. Nasceu na quinta-feira, dia 7 de junho, Heloísa, minha mais nova prima. Uma verdadeira jóia, um presente da vida, um instrumento que, apesar da fragilidade peculiar de um bebê, é forte o suficiente para esculpir o sorriso que há muito não aparecia com nitidez em nossos rostos. Contudo, a obra de arte não somos nós, as “meras esculturas”, mas ela, Heloísa, o “instrumento vivo” que, repleto de ternura e pureza, nos traz a paz. Heloísa, seja muito bem-vinda entre nós; você é muito amada por todos!

Muito feliz,
Jefferson

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Caros amigos leitores, Nos próximos dias, graças à conclusão do meu mestrado, estarei voltando a postar minhas reflexões. Grato pela paciência e desculpas pela demora! Abraços, Jefferson

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Reflexão (81) - Surto de espiritualidade


por Jefferson Ramalho

Na manhã de hoje acordei como naqueles tempos em que nada em minha vida era mais importante que a certeza de que sou alguém que, apesar de mim mesmo, é salvo pela Graça absoluta e indefinível de Deus, em Cristo. Não senti saudades da igreja que frequentei quando era jovem, mas senti falta dos dias em que eu dobrava meus joelhos ingenuamente e falava com o Mestre.

Me veio à memória aquelas cenas mais grotescas e, ao mesmo tempo, mais significativas, que tomavam conta da minha alma, levando-me ao temor, ao quebrantamento, ao sentimento de dependência do cuidado divino, ao êxtase.

A primeira coisa que fiz ao me levantar, antes de qualquer outra, foi acionar o aparelho de DVD e colocar para rodar o CD ‘Canções à meia noite’ do meu querido Stênio Marcius, a quem, inclusive, não vejo há quase dois anos. Saudades!

A voz, o violão e as letras do Stênio intensificaram ainda mais aquele surto de espiritualidade com o qual acordei. Sim, um surto, não mais que isso. Apesar dos sentimentos nostálgicos, das lembranças, da memória resgatada, da emoção e da vontade de não estar em nenhum outro lugar a não ser naquele no qual Deus pudesse estar – o que é impossível, racionalmente – sei que tudo não passa de um breve súbito.

Hoje, a minha vida é outra, meus sentimentos são outros, as pessoas com as quais desejo estar perto são outras; muita coisa mudou. Por alguns instantes veio ao coração aquele antigo prazer em estar à frente de uma congregação pregando o evangelho, de estar no meio da mesma congregação com os olhos fechados, as mãos levantadas e o coração explodindo cantando louvores ao Altíssimo. Porém, isso não me pertence mais, e nem eu quero essas coisas outra vez para mim. Não estou dizendo que perdi minha fé, que deixei de acreditar em Deus, que não sou capaz de me emocionar ao lembrar-me do significado do sacrifício de Cristo. Só não consigo mais ver qualquer relação entre aquelas práticas supostamente ligadas à devoção e estas outras convicções que, para mim, são suficientes e essenciais.

E assim, passe-se o surto, passe-se tudo o que veio com ele, retomo meus sentidos, vejo a vida, percebo que habito agora uma outra realidade, uma realidade cuja espiritualidade não é surtada, mas amparada em certezas e dúvidas simultaneamente, em fé e em ceticismo, em amor e em revolta, em esperança e em inconformismo, em paz e em litígios, em prazer e em dor, em vida e em uma certeza de que a morte virá, em crença numa realidade além da vida ao lado daquele Mestre e em uma quase certeza de que depois da morte, nada mais vai existir.

cheio de fé e cheio de dúvidas,
Jefferson