terça-feira, 14 de abril de 2009

Provocação: Reflexão (56) - Relendo a História 2

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Leitores amigos,

Primeiramente, quero me desculpar por não ser tão "religiosamente evangélico" com as postagens no meu blog. Eu sempre prometo e acabo não cumprindo. Mas espero que você tenha tido paciência! Aqui estamos juntos novamente para tentarmos reler a História do Cristianismo, à luz das propostas críticas, interdisciplinares e nada preocupados em fazer uma apologia à fé, como se a História fosse uma serva da Teologia.

Atualmente, por certo influenciado pelas novas perspectivas da historiografia sobre as quais tenho tomado conhecimento em meu curso de pós-graduação, tenho lido bastante a respeito das propostas da Escola dos Annales, originada na primeira metade do século XX, na França, precisamente na Universidade de Estrasburgo.

Observando a teoria histórica proposta pelos Annales, percebo a cada leitura que os historiadores cristãos, desde Eusébio de Cesaréia, têm pisado na bola. Quase todos, com raríssimas exceções, conseguiram escrever qualquer coisa, menos uma autêntica história da igreja. Se olharmos com os óculos das historiografias positivista e tradicionalista, que valorizam os grandes nomes, as grandes datas, os grandes episódios e os grandes feitos, concluiremos que tais historiadores cristãos acertaram. Só que o problema maior é que com as perspectivas da Escola dos Annales, especialmente da Nova História, percebemos que os caras erraram feio.

História vista de cima para baixo sempre foi o paradigma estabelecido. Mas a História vista de baixo para cima nunca foi privilegiada. Os excluídos, os anônimos, os sem nome, os clandestinos, enfim, os verdadeiros cristãos - aqueles que não aparecem nas páginas dos idolatrados Manuais de História da Igreja - sempre foram omitidos graças ao concubinato que passou a existir entre Estado e Igreja a partir do quarto século, e que se mostra evidente através da primeira de todas as obras de História da Igreja, produzida pelo bispo Eusébio de Cesaréia, servo da cristandade e, ao mesmo tempo, amigo íntimo do imperador que era nada mais nada menos que Constantino.

Desde Eusébio, História da Igreja é na verdade uma defesa à religião cristã com linguagem de historiador, menos uma obra autenticamente histórica. Podemos listar alguns que chegaram até nós brasileiros: Justo Gonzalez, Earle Cairns, Robert Nichols e Kenneth Scott Latourette, para citar apenas alguns mais admirados pelos protestantes. Na historiografia católica não é diferente.

Existem, porém, historiadores que não se preocuparam em fazer da história uma ferramenta apologética, limitando-se apenas à tarefa de recontar o passado e defender a fé, mas com olhar maduro, crítico, científico, conectado às outras ciências sociais - no que consiste a interdisciplinaridade proposta pelos Annales - conseguiram reproduzir a história do cristianismo com os olhos não somente no passado, mas principalmente no presente. Sim, no presente. Pois é a partir dessa mentalidade que se entende o conceito de problematização. A história passada é um problema que reflete no presente com conseqüências positivas ou negativas. É assim que se estuda História. Chega de contadores de causos, pois para isso, meu avô paterno que faleceu analfabeto aos 90 anos, nunca freqüentou a Academia.

Os historiadores da igreja mais admirados, lamentavelmente não passam de contadores de histórias, e seus "causos" são sempre os mesmos. Agostinho, Tomás, Lutero, Calvino... Meu Deus! Só existiram esses indivíduos? Eles foram importantes? Claro que foram. Devem ser estudados? Evidentemente. Mas e os anônimos? Os que de fato moviam as engrenagens da história da igreja? Até quando serão omitidos?

Eis nosso desafio para as próximas reflexões. Vamos tentar no próximo texto, observar o que está por traz da Era dos Mártires, e com isso, saberemos quem foram os verdadeiros mártires. Até lá!

na Graça,
Jefferson

2 comentários:

Edmilson Moura da Silva disse...

É isso ai meu caro, espero tambem que a nova geração procure fazer historia de baixo para cima ou deja do homem para Deus.

Abraço.

Há tenho um blog também da uma olhadinha lá.

edmilsonmoura.blogspot.com

Claudio Silva disse...

Sem dúvida a história contada do ponto de vista dos que não tiveram seus nomes registrados na "história oficial" é mais rica de conteúdo, vida e beleza. Não há preocupação com o final feliz ou enaltecer nomes, mas sim um registro mais fiel possível com os fatos.
E com certeza a história do cristianismo teve, tem e terá personagens anônimos que modificaram rumo e vidas sem a preocupação de sertem arrolados nos compêndios, mas que se contadas suas histórias muito enriqueceram o nosso presente e contribuirão para um futuro com mais humildade e responsabilidade.

Grande abraço

Claudinho - Charqueadas - RS