domingo, 20 de dezembro de 2009

Reflexão (63) - Cristão, eu?


por Jefferson Ramalho

Não parece uma pergunta difícil de ser respondida. Quando olho para o conceito preponderante de “evangélico”, na atualidade, não tenho dúvidas de que evangélico, já não sou há muito tempo. E cristão? Teoricamente, não parece haver problemas nesse termo. Todavia, se simplesmente passamos os olhos na história do cristianismo, a coisa começa a ficar complexa.

Tudo começa quando em Antioquia, alguns seguidores do movimento do Nazareno já falecido, misteriosamente ressuscitado e, mais misteriosamente ainda, ascendido aos céus, foram pela primeira vez chamados de “cristãos”. Isso está no final do capítulo onze do livro denominado Atos dos Apóstolos. O sentido, aqui, de “cristãos”, possivelmente era pejorativo. Eles não se diziam cristãos, mas seguidores da mensagem daquele que consideravam ter sido o Cristo, o Messias, o Ungido de Deus.

A briga aqui não é se ele foi ou se não foi o Cristo. Independentemente do que Jesus de Nazaré, aquele carpinteiro revolucionário, tenha sido, o que nos importa é o que ele foi considerado e quais os desdobramentos e consequências das atribuições que recebera de seus primeiros seguidores. O que sabemos acerca de suas palavras, atos, experiências e ensinamentos, devemos ao que seus discípulos registraram. Se ele disse ou não o que disseram que ele disse, é outro departamento. E a fé não quer saber desses questionamentos, embora devesse.

A questão é: por que seus seguidores foram chamados de cristãos? É esta uma forma apropriada de identificação? Se fosse, eles próprios não a teriam iniciado? Imagino Jesus de Nazaré que não queria glória dos homens, sabendo que seus seguidores foram identificados dessa maneira. Será que ele aprovaria? Por que ele próprio não disse: meus discípulos, vocês agora serão chamados de cristãos, só porque aceitaram seguir o Cristo que sou eu? Só que ele jamais disse tamanha aberração. Ele não disse que era o Cristo, ele foi o Cristo através dos seus atos de Graça, Amor e Misericórdia.

Algumas décadas se passaram, e os seguidores do Nazareno parecem ter gostado do apelido sarcástico. Eles próprios resolveram se identificarem como “cristãos”. Aquilo que antes era um xingamento virou identidade. Tanto virou identidade que após Nero, aqueles que simplesmente se identificavam como tais, assinavam suas próprias sentenças de morte. Ser cristão, na lei romana, virou crime. Crime contra o Estado, crime contra a religião tradicional do Império, crime contra o Divino Imperador.

Foram milhares aqueles que morreram nas arenas, nas estacas, nas cruzes, nas fogueiras, nas ruas, nas cavernas. Eusébio de Cesaréia em sua História Eclesiástica preservou as mais ricas informações a respeito daquela que ficou conhecida na historiografia cristã como Era dos Mártires. Policarpo de Esmirna, Inácio de Antioquia, Justino Mártir, Blandina, Perpétua, Felicidade, entre tantos outros e outras, assumem a posição de protagonistas na obra de Eusébio.

Os primeiros séculos da história dos agora chamados “cristãos” foram banhados de sangue. Cumpria-se a promessa indireta do mestre de Nazaré. Digo indireta, porque ele a fez enquanto censurava os fariseus e escribas: “[...] eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas. A uns matereis e crucificareis; a outros açoitareis nas vossas sinagogas e perseguireis de cidade em cidade”. Parece que, ao olharmos pra história, não seriam apenas os judeus aqueles que perseguiriam os seguidores do Nazareno.

No início do quarto século, uma nova roupagem fará parte da tão indefinida identidade cristã. Sim, indefinida! Não brigue comigo! Primeiro, vimos que eles não sabiam o que eram, mas exatamente por isso, sabiam o que eram. Às vezes – ou sempre – é melhor não ter rótulo para saber o que se é. Segundo, quando os caras são apelidados, não demora muito tempo para aderirem ao apelido. Terceiro, os coitados são vítimas do cumprimento da promessa do iniciador do movimento, porque bastava dizer-se cristão para ser morto nas mãos do Império. Agora, paradoxalmente, o mesmo Império resolve se converter.

Há, inclusive, uma discussão a este respeito. Setores mais conservadores da igreja atual afirmam que a conversão de Constantino narrada por Eusébio demonstra que foi o Império, apenas, que mudou, convertendo-se à religião verdadeira. Acerca da igreja, essa se manteve a mesma. Sou partidário da idéia que defende a mudança mútua. O Império mudou e a igreja, mais ainda. Cristão, agora, não é mais aquele que morre por assumir uma identidade, mas é aquele que reconhece nos conchavos entre o Estado e a Igreja, a manifestação dos favores divinos e o triunfo da "Noiva de Cristo" prometido em textos apocalípticos do Novo Testamento.

Constantino não poderia ser um político corrupto e interesseiro, ao contrário, era aquele que o Deus Soberano escolhera para libertar seu povo das garras diabólicas do Império anteriormente pagão. Nas palavras do próprio Eusébio, Constantino era o novo Moisés. Aqueles que reconhecem em sua pessoa a graça divina são os únicos dignos de serem chamados “cristãos”. Se apropriar de templos antes politeístas e transformá-los em templos de culto ao Nazareno, à Trindade (uma “coisa” que quase ninguém ainda entendia direito), era o que agora melhor caracterizaria aqueles que são considerados cristãos autênticos.

A Idade Média começa! O que significou ser cristão na Idade Média? Um período de muita produção intelectual já foi suficiente para nos comprovar o quanto o apelido “Idade das Trevas” foi injusto. Todavia, foi no medievo que os chamados cristãos praticaram as maiores e piores atrocidades de sua própria história. Inquisição, torturas, cruzadas, vendas de indulgências, simonia, vendas de relíquias falsas e nada sagradas, censura às inúmeras obras eruditas da teologia, da filosofia e da literatura de modo geral, repressão aos cientistas, apropriação do poder econômico – não só político – através das práticas e impostos feudais etc.

Uma das reações a essa decadência que pra muitos foi uma ascensão, foi o nascimento das ordens monásticas desde as primeiras com os padres do deserto, passando pelos monges que construíram os primeiros mosteiros até às ordens surgidas na tradicionalmente chamada Idade Média Central como a dos franciscanos, por exemplo. Mas, isso não foi o bastante. As mesmas ordens não conseguiram resistir às pressões e se embrenharam pelo mesmo caminho da corrupção. Basta ler o romance de Umberto Ecco intitulado "O nome da Rosa".

No século XVI, para os protestantes, cristão é o que rompe com a igreja católica apostólica romana corrompida por tantos equívocos teológicos, eclesiais e políticos. Para os católicos, ser cristão era não se aliar aos protestantes e abraçar pra valer os postulados do Concílio de Trento. Chamo atenção, porém, aos protestantes, apenas. Afirmavam-se cristãos autênticos, pois diziam estar resgatando as purezas do verdadeiro evangelho de Jesus, o Cristo. Daí, inclusive, que nasce na mentalidade protestante a seguinte distinção: ou você é católico ou você é cristão.

Dois séculos se passaram, o protestantismo já se dogmatizara no século XVII e, agora, com movimentos de avivamento espiritual, pregações às multidões, convite à uma espiritualidade não tanto racionalista, marcava uma nova “definição” ao termo cristão. Era preciso experimentar para se identificar como cristão de verdade. O pentecostalismo, no início do século passado será o ápice dessa neurose. Cristão é quem sente o corpo pegando fogo, quem fala línguas inexistentes – nem Babel conheceu tamanha confusão – e quem acredita nos fundamentos teológicos estadunidenses defendidos pelos ortodoxos anti-liberalismo teológico alemão.

Como se não bastassem 2000 anos de confusão, estes mesmos 2000 anos são selados com o nascimento do neopentecostalismo. Ser cristão é ser rico, próspero, ter o melhor carro, a melhor casa, a maior fazenda, as melhores roupas, a conta bancária mais bem abastada, empresas, autoridade, poder, status, fama gospel, saúde intacta, entre tantas outras coisas. E, detalhe: tudo isso a partir da operação de um mecanismo de barganha com deus. Preciso dar e dar muito – ainda bem que só o dinheiro, o que já é um prejuízo brutal – pra convencer o eterno de que eu sou merecedor de suas infinitas bênçãos.

Isso é ser cristão?

Será que é necessário que eu continue escrevendo, para que você saiba qual é a minha resposta à pergunta que dá título a este texto?

Feliz 2010!

na Graça,
Jefferson

6 comentários:

adriano disse...

Meu bom amigo Jeff.

Em toda a história do cristianismo ou de todos os que tomaram posse das prerrogativas de ser considerados cristãos se tirarmos algumas coisas em nada pareceriam ser seguidores de Jesus.
Por exemplo: Pegue a maioria dos evangelicos, tire deles os dizeres: "em nome de Jesus", "espirito Santo", ou qualquer outro dizer que acham que é isto que os faz cristãos... Vejamos apenas sua conduta na vida sem se importar com o fator religioso. Se fizermos isto em nada vamos lembrar de Jesus.
Pois o que faz eles serem cristaos está só nos dizeres mas nunca nas ações da vida.

Então tirando os rótulos (cristão, catolico, evangelico, protestante, presbiteriano, batista, pentecostal...) - rotulos estes que carregam uma falta sensação de estar ligados a Jesus e sua obra - em nada encontraremos evangelho.

Então digo:

1 - Não sei se precisamos ser cristãos - Este termos nao foi dado por Jesus, só foi dado muito tempo depois e variou de significado como vc bem explicou no texto.
2 - Os termos só servem para afirmar uma institucionalização, mas nunca os principios de vida.

Por isto o exemplo maior ser o de Pedro quando, na prisão de Jesus, foi visto por alguns e estes ao ver o quanto ele se parecia com o Jesus sabiam que Pedro andava com o mestre.
Reparem que Pedro nao deseja demonstrar que parece. Até pq neste momento havia implicações de integridade física envolvida. Nem saia arrotando ser evangelico, cristão, catolico ou o que quer que seja.
Ele só era... Só andava, caminhava.

O que somos deve estar incutido na nossa alma e não impresso na nossa camiseta ou adesivo de carro.

Beijão

Adriano Portugal

Evangelho Puro e Simples disse...

Fala mano,

Muito bacana o resumo histórico q tão bem vc fez.

Já comigo já alguns anos q toda bandeira só gera problemas, e o cristianismo não é diferente.

Problemas, com o fato de que perdemos a identidade e somos diluidos num inconsciente coletivo onde o que realmente somos se perde.

Jesus não era Cristão, ele era o Cristo.... mas o grande valor dEle é que ele era quem quem sempre havia sido desde a eternidade...

Então creio que o nosso valor está em sermos o que somos... E o que somos só podemos encontrar quando não nos vendemos a cliches, modismo,bandeiras, e tudo o que perverte o ser.

O que somos é que fomos criados para ser, porque Ele "fez o homem a Sua imagem e semelhança".

Abração

Alberto Lindholz disse...

Jeff,

Nao somente adorei seu texto, como tambem os comentarios dos seus leitores.
Ha tempos me pergunto qual bandeira devo seguir, e, se a que sigo é, de fato, a verdadeira. Assim como em algum dos comentarios, devo dizer que aprecio muito mais agir, do que simplesmente uma bandeira, seja cristao, catolico, xyz .. em fim, Amo a Deus, creio em Jesus ... o restante, Ele sabe.

Um forte abraco,

Alberto Lindholz

Anônimo disse...

Há um intelectualismo estéril que tenta ser como um analgésico na mente dos que o produzem porque a despeito de palavras e idéias muito bem construídas não conseguem ser em nada melhores do que os que são criticados. Esses intelectuais querem na verdade chamar a atenção sobre si mesmos. É tudo farinha do mesmo saco.

Anônimo disse...

Texto maravilhoso!
Uma autentica declaração de fé!
Só tenho isso a dizer!

Moisés Marcondes disse...

E ai Jeff.

Só hoje li seu Texto, mas não com menos carinho de quem aprecia o resgate do que foi o movimento que se iniciou com o Cristo, e que teve tantas inversões desde seu nascimento.

Parabéns por uma análise consciente, e no mínimo interessante do ponto de vista histórico. talvez o grande problema aos que não entendem o que lêem, seja a falta de capacidade em crer que Jesus (o Cristo) Não fundou o cristianismo, antes como já escrito, mostrou uma nova forma para se viver a vida.

Se não houver conexão com a história do Deus encarnado, não há metanóia; jargões e chavões só tornam as pessoas religiosas, mas nunca produzem vida, a vida com abundância encontrada em Jesus o Cristo.

Bj grande

Ley