terça-feira, 5 de outubro de 2010

***** A historiografia cristã na História (parte 4)

por Jefferson Ramalho

continuação...

Outro filósofo cujas idéias influenciaram no processo de desenvolvimento da historiografia moderna foi o alemão Wilhelm Dilthey, o qual ao invés de protestar contra a história, “manifesta admiração pela grandeza de suas conquistas [...], grandeza que lhe parece tão incontestável quanto a validade da física de Newton o podia ser para Kant; daí o seu projeto: elaborar a teoria dessa prática tão fecunda.” (Marrou, 1978, p. 17).

Entre os historiadores admirados por Dilthey está Leopold von Ranke, demonstrando que apesar dos problemas da historiografia de matriz positivista, preocupada com a afirmação de fatos legítimos, o filósofo não desconsidera os seus valores. Foi a historiografia de Ranke que elevou a História à condição de ciência. Por muitos, Dilthey é considerado um dos mais importantes pensadores da segunda metade do século XIX. “Sua influência foi, na verdade, extremamente profunda; ela explica, em especial, a atenção concedida aos problemas da história, e a própria forma de colocar esses problemas, que notamos nos filósofos do ‘retorno a Kant’” (Marrou, 1978, p. 17 e 18), como Windelband, Rickert e Simmel. Marrou ainda comenta que “no próprio Dilthey, tão cônscio da sua oposição a Hegel, a referência a Kant é evidente: ele não cessou de apresentar o seu empreendimento como a elaboração de uma Crítica da Razão Histórica, [...] um equivalente [...] da Crítica da Razão Pura. (Marrou, 1978, p. 18). Trata-se, portanto, de um prolongamento da obra mais conhecida de Kant. Com isso, conclui-se que Dilthey e seu movimento intelectual tenha superado “em todos os pontos a escola neokantiana stricto sensu.” (Marrou, 1978, p. 18).

Não pode ser omitida a contribuição procedente da Fenomenologia que, conquanto “o contexto de sua problemática fosse completamente distinto, homens como Husserl, Jaspers e, sobretudo, Heidegger também reencontraram o problema da elaboração do conhecimento histórico .” (Marrou, 1978, p. 18). Contudo, apesar de toda a originalidade de método e de “orientação desses filósofos, o seu pensamento, nesse ponto, não deixou de ser influenciado pela atmosfera irradiada de Dilthey, a cuja influência Heidegger, por exemplo, fez questão de prestar homenagem em Sein und Zeit.” (Marrou, 1978, p. 19).

A renovação historiográfica, de maneira efetiva, se dá a partir do trabalho do filósofo Henri Berr. “O projeto da nouvelle histoire, no sentido mais amplo, veio, portanto, do exterior da história, veio da sociologia durkeimiana em grande parte, de um lado, e, de outro, da Revue de Synthèse Historique e de seu fundador, Henri Berr.” (Reis, 2000, p. 56). Não é exagero concordar com a hipótese de que foi a partir desta revista de Berr que os Annales tiveram o seu início na prática. O objetivo dessa revista organizada por Berr “era promover uma discussão teórica sobre a história-ciência e deveria contribuir à elaboração de uma teoria da história, afastada da filosofia da história e orientada para a observação empírica.” (Reis, 2000, p. 57). Segundo José Carlos Reis, “a história [...] deverá formular hipóteses, escolher o objeto, realizar a análise e a síntese. Deverá deixar de ser só descritiva para se tornar também explicativa. A ‘síntese’ deveria envolver uma equipe de cientistas sociais.” (Reis, 2000, p. 57). Foi, portanto, com a revista de Berr que o diálogo entre historiadores e cientistas sociais passou a se efetivar, diálogo que é uma das principais características dos Annales.

Febvre colaborou intensamente com Berr tanto na formulação da Revue de Synthèse Historique como no Centre International de Synthèse. A posição defendida por Berr, naquele momento, não só era inovadora como problemática, pois sua originalidade consistia em exatamente anular a separação entre as ciências sociais, reaproximando-as da filosofia. Este ponto da reaproximação à filosofia é o que o afasta da revista que deu origem à Escola dos Annales, a Annales d’Histoire Economique et Sociale.

De acordo com a informação passada por Reis, a intenção de Berr assemelha-se à dos intelectuais durkheimianos, ou seja, a de considerar “a história uma ciência social, fazendo-a passar à generalização, a partir da erudição.” (Reis, 2000, p. 57 e 58) Como Berr não era um filósofo positivista, mas um defensor da “especificidade do conhecimento histórico, mais ou menos na linha dos historicistas alemães” (Reis, 2000, p. 58) foi considerado intolerável para os intelectuais dos Annales, fosse pelo seu lado germânico ou em virtude do discurso filosófico que sustentava. Fernand Braudel afirmara “que Berr, filósofo por temperamento e vocação, ‘traiu-se’, como intelectual, ao atirar-se de corpo e alma na filosofia da história.” (Braudel, 1972, p. 455). O fundamento histórico de Berr encontra-se entre as temáticas da liberdade do indivíduo e dos limites da razão.

Portanto, é na condição de filósofo que Berr acompanha a discussão do início do século XX a respeito da história enquanto ciência social, buscando esmiuçar este significado para a história. Embora tenha feito as críticas citadas acima ao Berr filósofo, o historiador Braudel não deixou de considerá-lo um antecedente dos Annales ao afirmar que é para ele que devemos olhar quando queremos saber quando a Escola dos Annales já se encontrava em sua fase embrionária. (cf. Braudel, 1972, p. 455).

Marrou ainda faz referência a importantes influências que a historiografia recebeu da filosofia para assumir seu próprio desenvolvimento. É importante saber também que “por mais ampla que seja, a zona de influência de Dilthey não abrange tudo: desde que, ao sair dessa autarquia nacional onde por tanto tempo permanecemos confinados, começamos a nos conhecer uns aos outros e a pensar de maneira européia.” (Marrou, 1978, p. 20). Há, aqui, a perspectiva de que a Grã-Bretanha, por exemplo, tenha revelado uma linha de pensadores ligados a essa problemática, e que tem sua origem no empirismo do escocês David Hume. Esta linhagem foi bem representada por volta de 1830 até 1850 pelos chamados anglicanos liberais como Thomas Arnold, Richard Whately e F. H. Bradley, este mais tardio, que iniciara sua carreira de filósofo com a autoria do ensaio The presuppositions of critical history (1874).

Bradley tem entre seus principais sucessores o britânico Robin George Collingwood, falecido em 1943, mais conhecido por sua obra The idea of history. Collingwood que, além de filósofo da história, era historiador e arqueólogo, não foi apenas influenciado por Bradley, Hegel e Kant, mas também pelo italiano Benedetto Croce, historiador e filósofo por vocação, que “dedicou aos problemas teóricos da história, desde a sua dissertação inicial, l’Histoire romenée au concept general de l’art (1893), até a obra de sua velhice, La Storia come pensiero e come azione (1938).” (Marrou, 1978, p. 20). Croce, entre tantas obras e ensaios de teoria da história, escreveu também Materialismo storico ed economia marxistica (1900), Teoria e storia della storiografia (1917) e Filosofia e storiografia (1949).

Após interessar-se inicialmente por um debate crítico do marxismo, Croce “concentrou-se em torno da noção de historicismo, tentando aprofundar de modo crítico a doutrina inaugurada por Hegel, segundo a qual a realidade é redutível à história” (Nicola, 2005, p. 449), pois nesta visão hegeliana tudo se afirma, se nega e se supera. Uma problemática importante na reflexão de Croce é aquela que questiona se há distinção entre história e filosofia. Para Marrou “a personalidade desconcertante de Croce pareceu muitas vezes resumir, no entender dos estrangeiros, toda a atividade da especulação italiana.” (Marrou, 1978, p. 20). Se há separação entre filosofia e história “nenhum juízo e nenhum objeto de conhecimento se podem colocar fora da história, porque sempre serão eventos postos no tempo e inseridos em um processo em curso. [...] A filosofia, portanto, identifica-se com a história.” (Nicola, 2005, p. 450). Além disso, “Qualquer problema filosófico só pode ser entendido à luz dos eventos que lhe deram origem e todo conhecimento é condicionado pelo tempo. Mas também o homem, tanto a humanidade quanto o indivíduo, é redutível à história.” (Nicola, 2005, p. 450).

Em comparação à filosofia da história de Hegel, para muitos, Croce é considerado a melhor “expressão da influência da filosofia hegeliana na Itália. [...] Contemporâneo da construção de uma Itália unificada, suas reflexões foram suficientemente densas para ultrapassar os limites do nacionalismo.” (Silva, 2001, p. 61). Com isso, Croce pertence àquele grupo de intelectuais “sem os quais torna-se mais difícil a compreensão do século XIX europeu.” (Silva, 2001, p. 61). Em crítica a Hegel, Croce escreve um ensaio no qual ataca às suas filosofias da história e da natureza, sem deixar de valorizar a síntese dos opostos, ou seja, a conhecida dialética, pois para Croce nem os contrários são uma ilusão, nem a unidade é uma ilusão. “Os contrários se opõem entre si, mas não se opõem à unidade, pois a unidade verdadeira e concreta nada mais é que a síntese dos contrários.” (Bréhier, 1994, p. 921).

Para Croce, tanto a filosofia da história como o determinismo histórico são “formas de transcendência histórica e, por isso mesmo, considera-os fora do campo da história propriamente dita.” (Silva, 2001, p. 63). Contudo, ainda que de acordo com o “princípio fundamental do historicismo, Croce diverge de Hegel no que se refere ao âmbito de aplicação do processo dialético.” (Nicola, 2005, p. 452). Enquanto que para Hegel a realidade, ainda que multiforme, pudesse por meio de um processo dialético reunir inteligência e matéria, espírito e natureza, para Croce é necessário romper com este paradigma totalizante, pois há quatro setores diferentes que são a filosofia, a ética, a economia e a arte, os quais precisam ser considerados de maneira distinta. Segundo Croce, apenas “no interior de cada um desses blocos valem as oposições dialéticas hegelianas (belo/feio, verdadeiro/falso, útil/inútil, bem/mal), mas no exterior, entre os diversos momentos da espiritualidade, existe apenas distinção”. (Nicola, 2005, p. 452). Portanto, em Croce, não há desenvolvimento em sentido linear conforme concebia Hegel, mas a vida do espírito se processa através da circularidade entre a filosofia, a ética, a economia e a arte.

Embora o estudo de história das religiões fosse objeto da repulsa de Croce, não se pode negar sua influência na formação da escola italiana de Angelo Brelich, Ernesto De Martino e Vittorio Lanternari.

Após esta breve viagem que fizemos, destacando encontros e desencontros entre a filosofia e a história, e neste caso específico, a história da religiões, chegamos a algumas conclusões que, a princípio, não passam de perguntas que pretendem ser hipóteses: a) é possível pensar numa historiografia da religião cristã que seja problematizada e que utilize os avanços teóricos de uma historiografia inovadora, rompendo assim com um estilo triunfalista, apologético, positivista conforme sempre foi marcada a escrita da história do cristianismo? b) trabalhar neste sentido da inovação historiográfica é o mesmo que assumir uma postura autônoma, de intérprete e não apenas de narrador dos fatos conforme efetivamente ocorreram? c) assumindo tal autonomia, estaria o historiador se apropriando corretamente de uma característica que sempre pertencera ao filósofo, ou seja, pode ser o historiador também um filósofo a partir do momento que se apropria de uma hermenêutica filosófica como ferramenta para o seu trabalho?

Neste sentido, estamos desenvolvendo uma crítica ao estilo historiográfico de Eusébio de Cesaréia, que apesar do tempo, permanece influenciando grande parte dos historiadores da religião cristã. O objetivo deste estilo não é outro a não ser o apologético, e é a respeito deste problema que iremos tratar no próximo tópico.

Um comentário:

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