sábado, 18 de julho de 2009

Reflexão (59) - Como assim, outra Reforma?

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por Jefferson Ramalho

Há algum tempo, pra variar um pouco, eu não escrevia nada em meu blog. Sou daqueles que, definitivamente, não está nem aí para essas coisas. Será que se eu vivesse disso, estaria sobrevivendo? Será que se disso eu sobrevivesse, seria tão descompromissado?

Agora o meu relógio marca 00:39, é domingo, dia 19 de julho de 2009. Estou fazendo algumas coisas até que o sono venha. Uma delas e a mais importante, é ver meu baby na web dormindo como um bebê! Também ouço uma canção do Guilherme Arantes que não ouvia há muito tempo: "Eu nem sonhava te amar desse jeito".

Outra coisa que também acabo de fazer, e que não faço sempre, é ler a Bíblia. Acabo de ler e reler algumas vezes o capítulo 4 de Atos dos Apóstolos. Um texto intrigante, provocativo, absolutamente distante da realidade cristã dos dias atuais. Distante em todos os aspectos. O crescimento numérico ao qual ali se refere nada tem a ver com o crescimento das agremiações evangélicas dos nossos dias. O desfecho do capítulo menos ainda tem a ver com a vida de tais agremiações. Ali sim, existia IGREJA.

Uma igreja atuante, crescente em número, em qualidade, em vida. Na próxima terça vou gravar uma rápida entrevista pra galera da RIT, aquele canal neopentecostal cujo programa Vejam Só! me parece ser o único saudável da emissora. Eles querem saber se a igreja atual precisa de uma nova Reforma. Eu penso que em certo sentido não é necessário acontecer uma nova Reforma. E as razões são óbvias!

Reformar o que, se nem a Reforma de Lutero reformou qualquer coisa? O que da Reforma surgiu foram novas identidades eclesiásticas, novas instituições, novas denominações separadas da Igreja Romana, mas se tem algo que a Reforma não conseguiu fazer foi voltar às origens da fé cristã. Pelo contrário, ela se distanciou ainda mais.

Tudo bem que a historiografia tradicional foi quem deu àquele movimento do século XVI o nome de Reforma, mas o fato é que até este termo já é problemático. Reformar é dar uma nova forma ou então voltar à forma original. Só que a característica original do movimento jesuânico é sem forma, sem ordem, sem política eclesiástica, sem hierarquias, sem rótulos, sem cara de religião. Era, ao contrário, um movimento rebelde e subversivo no contexto judaico. Portanto, sem forma!

Hoje é impossível pensar, por exemplo, em uma Reforma no contexto evangélico, haja vista a tamanha desunião e espírito de concorrência que há entre as denominações. Elas representam qualquer coisa, menos uma Igreja e o Corpo de Jesus Cristo. Estão interessadas em fazer uso do melhor marketing para alcançarem o maior número de sócios que for possível. A taxa desse associado é o dízimo, além de outras contribuições que ele é estimulado a dar, o tempo todo, caso contrário corre um sério risco de não ser abençoado ou mesmo levar uma rasteira do chamado demônio devorador quando colocar o pé pra fora do templo - o lugar santo. Esse é o discurso!

Quando leio passagens bíblicas como Atos 4 me pergunto com uma angústia enorme na alma e um aperto terrível no peito: Senhor, por que é que aqueles que se dizem cristãos não entendem o que está tão claro, tão óbvio, no Novo Testamento? Por que essa turma insiste tanto em afirmar que o crescimento institucional na terra é a melhor representação do crescimento do teu Reino, se é que teu Reino cresce, de fato? Por que, Senhor, que afirmar que não haver salvação em nenhum outro nome a não ser no Nome de Jesus, Teu Filho, para esses cristãos de hoje significa se tornar obrigatoriamente crente, como se a Tua Graça, Pai, só pudesse ser manifesta dentro das paredes de uma denominação evangélica? Por que, Senhor?

São questões assim que me sufocam e me fazem estar cada vez mais distante das responsabilidades religiosas e eclesiásticas. Eu sou um ser humano que tem um amor imenso pelo Evangelho e pelo Nome de Jesus. Apesar de todas as reflexões e opiniões críticas que eu possa ter, não perdi e não perderei o amor pelo Senhor, jamais, mas não consigo ver nenhuma relação entre o Evangelho e sua maior causa com aquilo que aí está estabelecido como representação maior dessa causa. Não é possível que esse negócio e o Evangelho sejam a mesma coisa.

Portanto, reformar o que? A divisão é tão significativa, a separação é tão grande e a concorrência é tão intensa, que o máximo que acontece nas igrejas evangélicas e protestantes são rompimentos de alguns "luterosinhos" que se acham mais próximos da Bíblia do que o seu líder - e no fundo, nem um nem outro estão perto coisa nenhuma - e acaba rompendo e abrindo uma nova igrejinha. Alguns se frustram e não duram meses. Conheço vários caras que afirmaram terem sido chamados por Deus para abrir um novo ministério, mas a sua deficiência enquanto homem de negócio não permitiu que a coisa desse certo. Outros, ao contrário, conseguiram romper com seus líderes, dividiram grupos e fundaram uma nova marca. E aí, graças à sua capacidade de administrar um pequeno negócio, a coisa foi em frente, cresceu, e se tornou um grande negócio. Claro que esses caras sempre dirão: Deus estava à nossa frente e honrou nosso trabalho! Já os frustrados, coitados, para justificarem o próprio fracasso precisam dizer: Deus sabe de todas as coisas. Vamos esperar no Senhor. Ele sabe o que faz!

Portanto, reformar o que, se nem Lutero conseguiu reformar a igreja da qual ele fazia parte? O que aconteceu foi o surgimento de uma nova ramificação cristã, o protestantismo, que por sua vez já nasceu fragmentado: luteranos, calvinistas, anglicanos...e por aí vai, com o passar dos séculos seguintes, até chegar aonde chegou. Minha pergunta é: como reformar? reformar o que? Impossível!

Não estou dizendo que não devem existir vozes de protesto a esses sujeitos que vendem a Mensagem de Deus como se fosse um produto, e descaradamente bricam com a fé de seres humanos ingênuos e fáceis de serem manipulados. Todavia, o mal que o neopentecostalismo representa, por exemplo, não é razão suficiente para que se pense em uma nova Reforma. Mais uma vez, insisto, uma nova Reforma é impossível! Primeiro porque a primeira Reforma de fato não foi Reforma no sentido de voltar a uma forma original. Segundo, porque nas origens o fascinante do movimento de Jesus é exatamente o fato de que não havia forma, pois a mensagem por Ele ensinada não precisava de fôrmas. As igrejas protestantes históricas, estas sim, quando muito conservadoras, valorizam mensagens supostamente bíblicas que cabem perfeitamente em fôrmas - muito quadradas diga-se de passagem - as quais são chamadas de Catecismos ou Confissões de Fé.

Enfim...penso que uma Reforma é impossível e inviável. O que precisamos fazer, simplesmente, é repensarmos aquilo que hoje é apresentado como autêntica mensagem cristã - e isso é uma tarefa dificílima, pois são muitas caras diferentes umas da outras - e olharmos para o Evangelho de Jesus. E entender que o cristianismo do Evangelho é simples, é puro, é suficiente em si mesmo, é o que é, ainda que muitos insistam em tentar demonstrar o contrário. E pra ser bastante irônico, o pior de tudo é que eles conseguem!

Enquanto isso, eu fico aqui ouvindo a minha música! Boa noite e...

...até a próxima!

na Graça,
Jefferson

3 comentários:

Música, Ciência e Teologia disse...

Jeff, sua frustração e a minha frustração também. Já conversamos sobre isso.

Acho que o mais difícil não é chegar à conclusão que uma reforma é inviável e impossível de acontecer. A propósito, discordo de você. O mais complicado é olharmos para a situação ao redor e desanimarmos.

Como você mesmo escreveu que ama o Senhor Jesus, temos que nos pegar, e apegar, nesse amor e nEle para não sucumbirmos ao trágico momento que a igreja vive.

Talvez o nome "Reforma" esteja gasto e não reflita o que gente como nós anseia, mas algo precisa ser feito. Não dá para ver as coisas que estão acontecendo e nos entregarmos à indiferença.

O erro precisa ser apontado com amor pelas vidas e amor pela correção da Palavra de Deus. O relativismo bíblico e o liberalismo teológico estão minando as forças da igreja.

Até mais, Marcos.

fabio.fino disse...

Jeferson, discreto amigo.

Sua mensagem (de Deus)desse domingo ferveu meu coração, cheguei ainda meio tonto em casa.

Acho que preciso reformar meu coração do estrago que foi feito.

Que Deus te conserve assim, com essa liberdade arrebatadora de falar do evangelho com tanta graça que transbordou até meu coração.

um abraço,

Fino

Flávia Costa disse...

Olá Jefferson,

Tenho acompanhado seu Blog desde que a Aline me falou e mostrou. Conheci a Aline lá na Puc. Estou concluindo o Mestrado em Ciências da Religião. Seus textos são críticos, mas infelizmente retratam a realidade. Eu também tenho uma leitura mais crítica da religião e coisa e tal. E olha que sou Batista de carteirinha (rs). Minha pesquisa no mestrado é sobre o que chamo de uso e abuso da Bíblia no neopentecostalismo. O que me instiga e indigna é as formas tão abusivas no uso da Bíblia as quais são completamente desprovidas de uma interpretação que tenha um aparato científico. Enfim, se puder trocas idéias com você vai ser muito bom.
Comecei meu Blog a pouco. Depois veja lá: http://flaviagcosta.wordpress.com/
No desejo de ser sem forma! E na graça!
Grande abraço,
Flávia Costa